Programa Novo Campo espera dar escala à pecuária sustentável

Iniciativa do ICV, na região de Alta Florestal, teve resultados acima dos esperados e entra na fase de disseminação

Mais do que demonstrar resultados, uma das maiores dificuldades de um bom programa voltado para a sustentabilidade ambiental no Brasil é ultrapassar a fase do projeto-piloto e ganhar a escala necessária que permita contabilizar ganhos ambientais substantivos e ter a chance de se tornar um novo modelo que avance por si só. Um forte candidato a obter esses resultados é o Programa Novo Campo, coordenado pelo Instituto Centro de Vida (ICV), voltado a promover práticas sustentáveis em fazendas de pecuária na Amazônia.

Iniciada em 2012, como um projeto-piloto em 14 fazendas da região de Alta Floresta, em Mato Grosso, a iniciativa “deu resultado maior do que o esperado”, segundo Laurent Micol, coordenador executivo do ICV. Em um ano de projeto, com atividades como reforma de pastagem, suplementação alimentar do gado, retirada do rebanho de áreas de proteção permanente (APP) e canalização de água, a produtividade dobrou nas propriedades, passando de 5 arrobas de carne por hectare/ano (@/ha/ano) para, em média, 10 @/ha/ano, sendo que, nas áreas intensificadas, a produtividade chegou a 20 @/ha/ano.

 

(Fotos: Daniela Torezzan/ICV)

 Os bons resultados, obtidos a partir da adoção das Boas Práticas Agropecuárias (BPA) para Gado de Corte, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), inspirou a criação do Programa Novo Campo, em 2014, para disseminar essas práticas em 200 a 300 propriedades em dois anos. O objetivo do programa é contribuir para a redução do desmatamento, conservar ou recuperar os recursos naturais e fortalecer a economia local. Para tanto, conta com parcerias, além da Embrapa, do Sindicato Rural de Alta Floresta, do Instituto Internacional para Sustentabilidade (IIS), da organização holandesa Solidaridad, do Imaflora e da JBS, maior processadora de carne boniva do mundo.

Segundo Micol, apesar dos resultados, o programa demanda um investimento alto, de R$ 2.500 por hectare, que inclui assistência técnica e ferramentas de rastreabilidade, como, por exemplo, para fornecedores de ração, que garantam um produto com desmatamento zero. Para viabilizar o acesso dos pecuaristas à tecnologia, aos investimentos e aos mercados de produção sustentável, os envolvidos resolveram criar uma empresa de assessoria e parceria agropecuária, a Pecuária Sustentável da Amazônia (Pecsa), que atuará em uma área que o ICV, como uma ONG, não trabalha.

O investimento inicial da nova empresa vem de um empréstimo, no valor de 11,5 milhões de euros (cerca de R$ 45 milhões), do Althelia Climate Fund, gerido pela Althelia Ecosphere, com sede em Londres. Esse é o primeiro investimento no Brasil da Althelia Ecosphere, que dedica-se a realizar financiamento de transições para o uso sustentável da terra e preservação de ecossistemas. Segundo Micol, que está se desligando do ICV para trabalhar na nova empresa, esses recursos serão empregados pela Pecsa para firmar parcerias com 20 fazendas, reformar 10 mil hectares de pastagens degradadas em dois anos, implantar infraestrutura de produção, custear o primeiro ciclo de produção, gerenciar 34 mil cabeças de gado e recuperar aproximadamente 700 hectares de APP degradadas.

Para participar do Programa Novo Campo (e também para se candidatar às parcerias com a Pecsa), os produtores precisam ter o Cadastro Ambiental Rural (CAR), não ter desmatamento não autorizado após 2008, não estar embargado pela Secretaria de Estado de Meio Ambiente de Mato Grosso ou pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama), e não estar inserido na lista de trabalho escravo do Ministério do Trabalho e Emprego.

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