Programa de baixo carbono: há crédito, mas demanda dos produtores fica aquém

Engenheiro agrônomo e diretor da MB Agro, consultoria paulista, Alexandre Mendonça de Barros concluiu um estudo importante sobre as causas do baixo uso de crédito no Programa Agricultura de Baixo Carbono (ABC) pelos produtores rurais. O levantamento constatou principalmente que não existe restrição na oferta de crédito. “O problema é de demanda por parte dos produtores nas áreas consideradas prioritárias pelo Programa ABC no Norte e no Nordeste. Principalmente no Nordeste”, informa Mendonça de Barros.

O estudo foi apresentado dia 30 deste mês, em encontro na Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo. Coordenador do GVAgro, o ex-ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, que conduziu os debates, disse que R$ 3 bilhões foram disponibilizados  pelo Programa ABC em 2016 e somente R$ 2,1 bilhões foram tomados pelos agricultores. “Queremos entender o motivo pelo qual o Programa ABC não decolou como era esperado. Os levantamentos são um esforço para saber as razões”, ele enfatizou.

Além do levantamento de Mendonça de Barros, o encontro na FGV lançou outro rico estudo que analisou especificamente os motivos para a pouca adesão ao Programa ABC no município de Alta Floresta, localizado no Estado de Mato Grosso e que faz parte do Bioma Amazônico. Foi constatado que os pecuaristas se mostram um pouco reticentes à incorporação de novas tecnologias e técnicas produtivas. O trabalho descobriu fatores limitantes de acesso ao crédito, como juros altos e burocracia, informa Evandro Paulin, pesquisador da FGV e um dos responsáveis pelo estudo em Alta Floresta. Foi constatado também o pouco conhecimento do Programa ABC. “Estamos desassistidos pela presença governamental”, declarou um dos produtores entrevistados.

Paulin relata que foram feitas 28 entrevistas com produtores rurais, representantes de bancos, governo e sociedade civil. As mudanças, no entanto, são iminentes, já que a maioria das propriedades possuem pastagens velhas e degradadas, aponta o levantamento.

Já Angelo Gurgel, coordenador do Observatório ABC, informa que até hoje o Programa no país não apresentou 100% de desempenho. Foi melhor na safra 2012/2013, quando alcançou um índice de 90%. Já na safra 2015/2016, o total de crédito usado foi de 68%. “Apesar de avanços nos últimos anos, se comparado à média do mercado, o Programa ABC perde recursos que poderiam potencializar a redução de emissões. Falamos de um Programa criado para apoiar o Brasil na busca por um modelo de produção mais sustentável, visando à meta de redução de 134 milhões a 163 milhões de toneladas de gás carbônico (CO2) equivalente até 2020”, diz.

O Observatório ABC é uma iniciativa voltada a engajar a sociedade no debate sobre a agricultura de baixo carbono. Está em atividade desde 2013 e é coordenado pelo GVAgro.

Alexandre Mendonça de Barros diz ter ficado um pouco surpreso com as constatações do seu estudo. “Antes de realizar o levantamento tínhamos a percepção de que haveria uma área degradada grande nas regiões prioritárias e, consequentemente, demanda para investimentos robustos à adoção de tecnologias de baixo custo de carbono. Porém, como as captações se mostraram relativamente reduzidas, tornou-se relevante entender quais os problemas que restringem a tomada de recursos por parte dos produtores rurais”, explica o agrônomo.

A falta de demanda acontece por conta do risco embutido na recuperação de áreas degradadas, fator que desmotiva o produtor a procurar o crédito rural, informa Mendonça de Barros.

Uma das principais conclusões do estudo é que as áreas selecionadas como prioritárias pelo Programa ABC são de maior risco climático e econômico e não são cobertas pelas principais rotas logísticas de exportação do Brasil. Além disso, dificilmente propiciam sistemas de integração entre lavoura e pecuária ou produção de madeira. “As taxas de juros e o preço do boi na região são outros pontos que impactam o Programa ABC”, segundo o relatório.

O estudo de Mendonça de Barros recomenda que seja dada prioridade às regiões que apresentam um mínimo de viabilidade econômica, como Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul. Também Mato Grosso. “E preciso remodelar o conceito de áreas prioritárias incorporando critérios econômicos”, afirma o analista que também é produtor.

Segundo ele, a escolha de áreas prioritárias baseada na lotação das pastagens não leva em consideração os riscos percebidos pelos produtores. “Instabilidade de clima, deficiência logística, falta de insumos essenciais, inexistência de estrutura de abate e recepção de grãos são limitações de difícil superação. Dessa maneira, a escolha de áreas prioritárias deve seguir um modelo de tomada de decisão que incorpore dinamicamente as variáveis econômicas.”

Têm muitas informações importantes nos estudos apresentados na FGV. E inéditas. O endereço eletrônico do Observatório ABC é observatorioabc.com.br

Fonte: Globo Rural

Comentários

Compartilhe