Mudanças no uso da terra respondem por 51% das emissões brasileiras, enquanto agropecuária é responsável por 22%

Mudanças no uso da terra respondem por 51% das emissões brasileiras, enquanto agropecuária é responsável por 22%

Zerar o desmatamento e recuperar pastagens, no entanto, poderiam tornar setor sequestrador de carbono

O Brasil aumentou em 9% suas emissões de gases de efeito estufa em 2016. Metade dessas emissões (51%) vieram do setor chamado de mudança no uso da terra, que, na prática, se refere ao desmatamento, que sofreu um aumento significativo no ano passado. Outro setor em que houve aumento de emissões foi o da agropecuária, que respondeu por 22% das emissões. As mudanças no uso da terra (ou seja, o desmatamento), por vezes são atribuídas, por completo e erroneamente, a um efeito indireto da agropecuária, gerando uma impressão equivocada de que apenas esse setor seria responsável por mais da metade das emissões brasileiras. De fato, o desmatamento é provocado não apenas por razões da expansão da área agrícola, mas também por atividades ilegais com fins de extração madeireira e de recursos minerais, grilagem e posse da terra para futura tentativa de venda para agropecuaristas, bem como para grandes projetos de infraestrutura, Os demais setores (energia, processos industriais e resíduos) tiveram pequenas quedas nas emissões no período.

Os dados fazem parte da quinta edição do Sistema de Estimativas de Gases de Efeito Estufa (SEEG) lançada hoje (26/10) pelo Observatório do Clima, iniciativa que reúne várias organizações que atuam no combate às mudanças climáticas. Foi o segundo ano consecutivo de aumento de emissões no país, que chegaram em 2016, conforme o SEEG, a 2,3 bilhões de toneladas de gás carbônico equivalente (CO2e).

Segundo Tasso Azevedo, coordenador técnico do SEEG, esse aumento aconteceu durante dois anos de recessão, onde o esperado seria que as emissões reduzissem, como efetivamente aconteceu nas áreas de energia, indústria e resíduos. O resultado pode comprometer o cumprimento da meta assumida pelo país de redução de emissões até 2020 (de 2,2 bilhões de toneladas por ano), que até então era dada como tranquila.

O aumento nas emissões acompanha o crescimento do agronegócio. “É um setor importante para o PIB, mas ainda assim seu volume de emissões é desproporcional”, afirma Azevedo. Os estados que mais emitiram no período foram Pará e Mato Grosso, onde o desmatamento é maior.

Contudo, de acordo com o Coordenador do Observatório ABC, Angelo Gurgel, essa impressão de desproporção das emissões do agronegócio é uma visão equivocada e parcial do setor, que contribui com cerca de 23% do PIB nacional, portanto, menos que sua proporção nas emissões diretas absolutas. Ainda, como os dados do SEEG não consideram as remoções de CO2 proporcionadas por algumas atividades agropecuárias, as emissões líquidas do setor são menores, apesar de relevantes. Para Gurgel, a desconsideração desses aspectos gera dificuldades na construção de uma agenda construtiva para redução das emissões do setor.

As emissões no setor de mudança no uso da terra aumentaram 23% em 2016 em relação a 2015. Conforme Ane Alencar, do Instituto de Pesquisa Ambiental na Amazônia (Ipam), responsável pelos levantamentos de dados nessa área, 53% dessas emissões vieram da Amazônia, que teve 8.000 km2 desmatados, o maior índice desde 2008. Mas as taxas do Cerrado são ainda mais alarmantes, pois ocupando uma área de 9.500 km2, o bioma respondeu por 20% das emissões do setor em 2016. “O Cerrado tem uma taxa de desmatamento cinco vezes maior do que a Amazônia e já está com 50% da sua área desmatada”, disse Alencar.

Se é no setor agropecuário onde estão os maiores desafios do país em relação às emissões de gases de efeito estufa, é nessa mesma área que estão as maiores oportunidades. Segundo Alencar, se o Brasil deixasse de desmatar (o que vem sendo chamado de Desmatamento Zero), além de cumprir suas metas de redução de emissões, sequestraria anualmente mais 630 milhões de toneladas de CO2e, o que equivaleria a compensar as emissões anuais da indústria.

Além disso, Ciniro Costa Júnior, do Instituto de Manejo e Certificação Florestal e Agrícola (Imaflora), responsável pelos levantamentos do setor agropecuário, ressaltou que a maior parte das emissões diretas do setor são referentes à fermentação entérica do gado bovino, seguida daquelas provocadas pelos pastos degradados. Isso significa que um melhor manejo da pecuária, sobretudo a recuperação de pastagens, como o praticado na agricultura de baixo carbono (ABC), também pode levar o setor a se tornar sequestrador ao invés de emissor de carbono.

 

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