Agricultura de baixo carbono é parte das metas do Acordo de Paris

Agricultura de baixo carbono é parte das metas do Acordo de Paris

Diferenciar papel da agricultura e do uso da terra nas emissões é desafio no Brasil

Passada a conferência anual do clima da ONU (COP-23), em 2017 realizada em Bonn, Alemanha, começa a fase de se criar as regras para que o Acordo de Paris (no qual os países assumem suas metas de redução de emissões) passe a vigorar, o que deve acontecer a partir de 2020. “O que se busca, agora, também é acelerar a ambição dos países antes dessa data, pois já se sabe que o que os países prometeram é insuficiente para brecar o aumento da temperatura global em 2º C, o que dirá em 1,5º C”, disse Tasso Azevedo, coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa do Observatório do Clima (SEEG), durante plenária da Coalização Brasil Clima, Florestas e Agricultura, realizada no início de dezembro.

Para que isso aconteça, há consenso de que a agricultura é parte fundamental da equação de mitigação das mudanças climáticas. Nesse sentido, o Brasil tem um papel importante, entre os 37 países que trouxeram a agricultura de baixo carbono para suas metas. Mas, para tanto, precisa trazer o produtor rural para a discussão, o que é um desafio, na opinião do coordenador do Observatório ABC, Angelo Gurgel, sem que se reconheça o real papel da agricultura tanto nas emissões quanto no potencial de mitigação no país. “É precisa diferenciar o que são emissões do uso da terra, que não podem ser totalmente creditadas à agropecuária, das emissões diretas do setor”.

Segundo Daniel Silva, pesquisador do Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam), essa questão é particularmente importante no Cerrado, onde é intensa a expansão agrícola no país. “No Cerrado, temos 50% da produção agrícola brasileira e mais de 50% do bioma desmatado. São 5,6 milhões de hectares abertos com baixa aptidão agrícola, áreas com relevo muito acentuado, por exemplo, que estão sendo abertas para grilagem e especulação. Não é o produtor rural que está desmatando, é o grileiro. Na percepção do agricultor, há perdas de safras no Cerrado nos últimos anos que podem estar ligadas às mudanças climáticas”, disse.

Para o coordenador do Observatório ABC, “creditar todas as emissões do desmatamento ao produtor rural não ajuda o debate e faz com que o agricultor fique com o pé atrás para aderir à causa. Precisamos deixar claro o que é desmatamento ilegal, que não está no setor produtivo. Parte disso são áreas que nunca chegam a ser utilizadas. Deve existir no arco do desmatamento agropecuarista fazendo isso, mas não é representativo do setor como um todo, que não quer ser acusado de ser esse cara, pois tem também madeireiro, especulador, minerador, obras de infraestrutura. Dizer que 50% das emissões brasileiras, que são do uso da terra, entram na conta do agropecuarista não é justo e cria uma agenda difícil de ser conciliada”, opina.

 

 

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